sábado, 2 de junho de 2012

De Pueris (Dos Meninos) - A Civilidade Pueril - Erasmo de Rotterdam

Todo mundo sabe sentar à mesa e ter modos crianças? - O que a gente entende por "etiqueta" não é igual em todas as partes do mundo... E quem nunca comeu frango com a mão? Se atualmente não seguimos à risca as regras na hora das refeições, imagina na Idade Média como a coisa era feia...


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Estamos no ano de 1530, século XVI, Renascimento, Humanismo, em época que a educação aprimorada era para poucos, sobretudo para os nobres e príncipes.
É justamente nesse período de transição da Idade Média para a Moderna que Erasmo viveu. Imaginamos que no tempo que Erasmo edita seu manual, a sociedade Renascentista vivia num clima de catástrofe, de um lado a reforma do outro a contra reforma e a luta da Igreja em meio a rupturas resistia para fortalecer a instituição.
É nesse momento que aparece em cena a figura do mestre educador, com o intuito de ensinar a civilidade do comportamento coletivo.
Pois bem, o manual “De Pueris” foi feito para corrigir e ordenar atitudes externas comportamentais. Nesse sentido era um direcionamento no (modo de falar, agir, olhar, vestir-se).
Erasmo de Roterdã almejava mais, ele objetivava que a criança entrasse em harmonia com seus ensinamentos. O autor acreditava que a arte de ensinar deve obedecer as fases do crescimento espontâneo da criança.
O ato de educar, aliás, a educação tem o objetivo de cultivar, aperfeiçoar.  O educador potencializa o conhecimento do aluno.
Vale ressaltar que Erasmo, acreditava que somente proibir a criança não era a solução, então porque não motivar a criança à norma correta, despertando seu interesse.
Na Idade Média S.Tomás de Aquino já falara em educação com “docilidade”, com isso ao reparar o processo educativo o aluno desempenha um papel fundamental no aproveitamento do aprendizado.
“Aquele que acolhe recebe qual recipiente.” Evidente que a capacidade do recipiente determina o volume do conteúdo.
Erasmo edita seu tratado a faixa de conduta humana, as principais situações da vida social, cultural e de convívio. Delimita  em seu tratado questões corriqueiras da vida.
Erasmo de Roterdã
Segundo Erasmo a arte de instruir uma criança passa por diversas etapas, a principal consiste em fazer com que espírito da criança ainda tenro receba as sementes da piedade. A segunda é que tome amor pelas belas artes e que aprenda o bem A terceira que seja iniciada nos deveres da vida. E a quarta que se habitue, desde cedo, com as regras da civilidade.
O autor se propõe a tratar da civilidade para educar os meninos, principalmente os filhos dos nobres, Erasmo inova ao educar as crianças. Era mais comum ensinar aos jovens e adultos.
O manual de Erasmo influenciou um período compreende desde o século XVI a meados do XIX. Quando foi lançado em 1530, A Civilidade Pueril tinha o intuito de ser apenas mais um manual de regras de comportamento.
Contudo este livreto é bastante inovador em sua construção e no seu público, é pontualmente a primeira vez que um texto de instrução comportamental é direcionado a crianças.
É interessante salientar que as crianças pós Erasmo passaram a ir à escola e não mais a serem educadas exclusivamente no ambiente familiar. Nesse sentido o De Pueris se tornou verdadeiro manual pedagógico onde a formação da criança passaria a i fundamental para a sociedade ter homens de bem. 
Por fim Erasmo não pretendia criar um código de comportamento para ensinar bons modos para jovens e adultos e sim uma linguagem que tornasse possível a convivência de todos, e esta linguagem, sendo inserida prioritariamente na vida das crianças, traria sucesso nas relações entre adultos.
Cap. I
As atitudes corretas e incorretas
- Os olhos
“Para que a boa índole da criança seja transparente (e nada como os olhos para revela-la) convém que o olhar seja plácido, respeitoso e circunspecto.”
“Realmente, não foi, por acaso que a sabedoria  dos  antigos dizia que a alma tem sua sede nos olhos. As pinturas antigas nos dão a entender que olhos semicerrados eram sinal de peculiar modéstia.”
“É de certo, indecoroso olhar com uma vista aberta e a outra fechada. Que isso se não fazer-se de zarolho? – Deixemos semelhantes trejeitos para o atum e certos artesões.”
De fato para Erasmo, qualquer postura “indecorosa” deforma não só os próprios olhos, como também toda a aparência física e a beleza do porte.
- As Sobrancelhas
“As sobrancelhas devem ficar naturalmente distendidas  e não franzidas porque então projetam um aspecto ameaçador.”
- O nariz
“Nariz sujo e mucosa pituitária são sinais de indivíduo desasseado. Aliás, houve quem reprovasse o filósofo Sócrates por tal defeito.” – “Limpar o nariz  no braço ou sobre o cotovelo é próprio dos salgadores.” – “Não é bonito  também limpar o nariz com as mãos e, depois, esfrega-las nas vestes.”
-Espirro
“Se na presença de outras pessoas, ocorre o espirro, é de m bom  tom virar o dorso. Uma vez passado o acesso, há de se fazer o sinal da cruz sobre os lábios e , a seguir, tirando o barrete, fazer um cumprimento às pessoas que disseram “saúde” ou pelo menos, deveriam  tê-lo dito.”
- O rosto
As maçãs do rosto sejam de cor natural e sem afetação. Em todo caso nunca calha bem pintar as faces ou passar corante avermelhado. “Isso não obstante, seja o rosto devidamente cuidado, sem descambar para o ridículo ou para a idiotice ou ainda, como diz o provérbio, cair no quarto grau de insanidade.”
- O Riso
“Rir de tudo que se faz ou é dito eis coisa de bobalhão, mas, não rir de nada já é estupidez.”
- Cuspir
“Deve-se virar-se para o lado, quando alguém cuspir. Assim se evita borrifar ou conspurcar o outro. Se cair por terra parte da secreção mucosa, há de se colocar o pé em cima, como já foi dito acima, pois não se deve provocar náuseas em ninguém.”
-Vômito
“Para vomitar procura distância, pois vomitar não é delito. O execrável é predispor-se ao vômito por gulodice.”
-Dentes
“Deves ter o cuidado de manter os dentes limpos, mas estar a polir os dentes, servindo-se de certos pós é coisa afeminada. Esfregar com sal ou alume prejudica as gengivas. Típico da moda espanhola é enxaguar os dentes com urina.”
-Cabelo
“Não se pentear demonstra desleixo. Cuidar da limpeza não é imitar a denguice da menina.”
-Braços
“Cruzar os braços, entrelaçados um no outro, equivale à posta de preguiçoso ou de quem lança um desafio.”
-Pescoço
O pescoço não fique pendente nem para direita nem para esquerda, a menos que seja para um colóquio ou para outro motivo. Assim se evitam cenas de comediantes.
-Partes Pudendas
“Os membros aos quais a natureza outorgou o pudor, descobri-los sem necessidade, eis o que deve ficar alheio a uma índole liberal.”
-A urina
“Reter a urina é prejudicial para saúde. É de bom costume vertê-la em lugar reservado.”
-As pernas
“O correto seria assentar-se ter os joelhos juntos e, ao ficar de pé, aproximar as pernas uma da outra ou, pelo menos deixar pouco espaço entre elas.”
-Os pés
“Movimentar s pés, estando assentado, evoca o gesto de bobalhão.”
-As mãos
“Igualmente, gesticular com as mãos desperta  suspeita de alguma anomalia.
Cap. II
A elegância dos trajes
Nesse capítulo veremos sumariamente de algumas observações acerca dos vestuários.
-A roupa
“A roupa de certo modo, é o corpo. Isso porque externa as disposições interiores do individuo. Não há como estabelecer, aqui, normas rígidas, já que nem todos possuem igual riqueza nem a mesma categoria social. Além do mais, a elegância varia de lugar, sem esquecer que as preferências mudam ao longo do tempo.”
“Senhoras que arrastam longas caudas no vestido, nada mais ridículo. Igualmente é desaprovado tal costume nos homens. Deixo para outros opinarem se isso convém ou não para cardeais e bispos!”
“O uso de tecidos leves não faz boa figura nem nos homens nem nas mulheres. Convém então usar outro tecido de reforço de modo a ocultar aquelas partes que ficariam, impudicamente, expostas.”
“Em consonância com as partes e o status, respeitando ainda usos e costumes de cada região, deve-se ater à limpeza da roupa.”
- O asseio
“Há gente que mancha, com pingos de urina, as bordas dos gibões e das camisas ou ainda incrustam o forro das mangas com nódoas feias não de giz, mas de escarro e pituita.”
Cap.III
Como se portar na Igreja
“Sempre que adentrares  os umbrais da igreja, descobre a cabeça e, genofletando, ligeiramente, com o rosto voltado  Crispara o altar, saúda o Cristo e os Santos.”
- A missa
“Não fica bem transitar pelo recinto da Igreja como os peripatéticos. Lugar de passeio são as galerias e as praças públicas, mas não as Igrejas que foram consagradas para fins de evangelização, para a celebração dos mistérios da fé.”
“Guarda o seguinte é inútil ir a uma Igreja, se dali não saíres melhor e mais puro.”
Cap. IV
Os banquetes e as refeições
- Antes das refeições
“Nunca se assentar sem ter lavado as mãos, porém, limpa, primeiro, as unhas”. - Que elas não escondam sujeiras senão podes levar apelido de “unhas encardidas.”.
- Posição do corpo
“Não se perdoa a mania de pôr um ou dois cotovelos sobre a mesa. Isso passa despercebido nos velhos e nos doentes. Cortesãos há refinados que se permitem tais posturas. Não dês atenção a eles e nem os imites.”
-Talheres
“O copo fica à direita como também a faca, devidamente asseada, para talhar a carne. O pão à esquerda.”
- O pão
[..] apertar o pão com a palma da mão para depois parti-lo em pedaços com as pontas dos dedos. É coisa de cortesão. Tu porem deves cortá-lo, com a faca, indo de um lado para o outro. “Isso sim revela modo de gente refinada.”
- Bebida
“Antes de beber, engole a comida. Nunca aproximar o copo dos lábios sem, primeiro, tê-lo limpado com o guardanapo ou com o lenço, principalmente se um dos convivas te apresenta o próprio copo ou se todos bebem da mesma taça.”
- Impaciência o comer
“Há gente que, mal se aproxima da mesa, mete a mão nas travessas. Isso é coisa de lobo ou de quem devora as carnes da panela antes mesmo de serem feitas as libações aos deuses, como diz o provérbio.”
- Modo de ingerir
“Deglutir bocados inteiros, apressadamente, é próprio das cegonhas e dos histriões”.
“É costume de caipira estar a imergir no caldo o pão mordido.”
“Não jogar embaixo da mesa ossos e outros detritos a fim de não conspurcar o pavimento. Também não depositar sobre a toalha da mesa nem dentro da travessa de serviços. O certo é deixar, num canto, dentro do seu prato ou no pires que, segundo o costume corrente, destina-se a receber os restos.”
“Beber e falar com a boca cheia, sobre  ser mal- educado, é também perigoso.”
“Feio mesmo é ficar de olho no vizinho para observar o que ele come. Também não é elegante assentar os olhos, fixamente, em determinada pessoa.”
Mas o que era um comportamento socialmente aceitável na Idade média? – A questão das refeições tinha uma importância especial. Nesse sentido, comer e beber nessa época estava diretamente relacionado à posição social.
Cap V
Encontros e conversas e conversas
“É vulgar agitar os braços com os dedos bem como mexer com os pés, expressar-se menos com palavras e mais com o corpo todo. Isso fica bem nas rolas, nas alvéolas e nas pegas.”
“Sobraçar um livro ou um barrete pelas axilas é de mau gosto.”
“A voz da criança seja suave e calma.”
“Não sejas curioso a respeito das coisas alheias. Caso aconteça de ver ou ouvir qualquer indiscrição, tenta ignorar. o que acontece.”
Cap. VI
No leito
“Quando te recolheres ao cubículo, reconcilia o silêncio com a modéstia. Sem dúvida que barulho e tagarelice são muito mais detestáveis nas horas de estar recolhido ao leito.”
“Quer se despir, quer ao te levantar  do leito, lembra-te de manter o pudor. A Cuida para não descobrires ante os olhos dos outros aquelas partes de corpo que a natureza e a decência querem veladas.”
“Depois de aliviar o intestino, nada deves fazer antes de ter lavado a face e as mãos bem como enxaguar a boca.”
“Se de alguma utilidade for o presente  opúsculo, ó filho caríssimo, almejo seja o mesmo oferecido, por teu intermédio, a todas as crianças de tua idade.” - Erasmo

Fonte: De Pueris (Dos Meninos) - A Civilidade Pueril - Erasmo de Rotterdam

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